Durante muito tempo, achei que os bastões de caminhada serviam sobretudo para parecer mais um « caminhante experiente » nos trilhos. Um pouco como os óculos de sol que, às vezes, dão a impressão de que sabemos exatamente para onde vamos... mesmo quando ainda estamos à procura do estacionamento.
Depois comecei a usá-los de verdade.
E descobri algo curioso: os bastões de caminhada parecem-se muito com a vida.
Ao contrário do que se possa pensar, um bastão não está lá para carregar o teu peso no teu lugar. Não é uma muleta. É um parceiro de movimento. Um companheiro discreto que ajuda a encontrar o equilíbrio, a repartir o esforço, a ultrapassar uma passagem mais difícil. Mas nunca faz o caminho por ti.
Aliás, no dia em que nos apoiamos demasiado nele, o corpo rapidamente nos relembra algumas verdades. Descobrimos músculos cuja existência desconhecíamos por completo. Alguns despertam com entusiasmo, outros com algum mau humor. E, na manhã seguinte, encarregam-se de nos apresentar a conta.
Um bastão não é, portanto, um apoio permanente. É uma transferência de peso. Um instante de suporte. Um movimento. Acompanha uma passada e depois deixa que a seguinte aconteça por si só.
E, afinal, não será exatamente assim na vida?
Todos precisamos de ombros em que possamos confiar. Amigos, família, colegas, companheiros de jornada. Pessoas que nos estendem a mão quando o trilho se torna mais íngreme. Mas nenhum desses ombros foi feito para suportar o nosso peso para sempre.
Porque, ao descansarmos totalmente sobre alguém, acabamos por cansar o outro e por esquecer a nossa própria força.
Os bastões ensinam-nos uma forma muito simples de sabedoria: receber ajuda sem abdicar da nossa responsabilidade. Aceitar apoio sem renunciar a avançar pelos nossos próprios meios.
Eles mantêm-nos firmes, mas não nos seguram.
Ajudam-nos a manter o equilíbrio, mas não nos dispensam do esforço.
Tornam o caminho mais confortável, por vezes mais seguro, mas nunca movem os nossos pés no nosso lugar.
Companheiros que parecem dizer:
"Estou aqui para te ajudar a avançar. Não para avançar no teu lugar."