O mais pesado dos fardos é, muitas vezes, invisível. No Caminho de Compostela, compreende-se isso muito rapidamente: ele não tem forma, nem alças, nem um peso mensurável... e, ainda assim, por vezes cansa mais do que os próprios quilómetros.
É feito daquilo que não dizemos, daquilo que guardámos dentro de nós durante demasiado tempo, daquilo que fingimos ter superado, mas que continua a pesar sobre nós. E, no caminho, não há realmente espaço para mentiras elegantes: cada passo devolve tudo à sua verdade essencial.
No entanto, algo de estranho acontece. À força de avançar, de cruzar outros peregrinos, de rir por quase nada ou de nos sentarmos sem motivo à beira de um trilho, descobrimos que esse peso não é imóvel. Ele desloca-se, desfaz-se e, por vezes, dissolve-se sem aviso, como se nunca tivesse tido tanto poder quanto aquele que lhe atribuíamos.
Há até dias em que nos surpreendemos a sorrir ou a chorar sem saber porquê... apesar dos pesos que carregamos sobre os ombros.
O caminho não retira nada à força. Ele transforma, suavemente, a maneira como carregamos a vida. Até que percebemos que caminhamos, no fundo, com muito mais do que peso: caminhamos com uma história que apenas pede para respirar, para ser vista e reconhecida pelo que é.
A aceitação daquilo que foi e daquilo que é.