Minha querida mochila,

Há dias que estás aqui, pousada sobre os meus ombros como uma evidência.
Às vezes olho para ti com desconfiança no momento de te erguer. Todas as manhãs, pareces ter ganho alguns quilos durante a noite. Chego a suspeitar que te alimentas de cansaço, poeira e desníveis.
E, no entanto, assim que as tuas alças reencontram o seu lugar nos meus ombros, partimos novamente juntos.
Tornaste-te a minha mais fiel companheira de viagem.
Não falas. Não aconselhas. Não julgas. Estás simplesmente ali, a cada passo, em cada subida, por cada caminho de terra, cada trilho de pedra e em cada chegada à aldeia, quando as pernas finalmente pedem descanso.
Conheces melhor do que ninguém o ritmo da minha viagem. Ouviste os meus suspiros nas subidas intermináveis. Recebeste as gotas de chuva destinadas ao meu rosto. Partilhaste os meus deslumbramentos diante de um nascer do sol, de um campanário ao longe ou de um encontro inesperado.
És a testemunha silenciosa desta aventura.
No teu ventre, transportas a minha vida reduzida ao essencial. Algumas roupas, um caderno, um pouco de água, alguns objetos escolhidos com cuidado. Tudo aquilo que eu julgava necessário cabe agora em alguns compartimentos.
É uma lição curiosa.
Antes de partir, passei algum tempo a decidir o que levar. Hoje, passo sobretudo o tempo a compreender aquilo que poderia deixar para trás.
Porque o teu peso conta uma história.
Há o peso real, aquele que puxa os ombros ao fim do dia. Mas há também aquele que ninguém vê. As inquietações, as expectativas, os hábitos, as certezas com que nos sobrecarregamos sem sequer nos apercebermos disso.
O caminho tem essa estranha capacidade de revelar aquilo que carregamos.
E, por vezes, de nos ensinar a pousá-lo.
À noite, quando te abandono aos pés de uma cama de albergue, permaneces ali, silenciosa na escuridão. Gosto de imaginar que ainda velas um pouco durante o meu sono. Guardiã discreta daquilo que me acompanha nesta estrada.
De manhã, recomeçamos.
Tu às minhas costas.
Eu no caminho.
Dois viajantes unidos pela mesma direção.
Não sei exatamente o que encontrarei no fim desta aventura. Talvez respostas. Talvez novas perguntas. Talvez simplesmente a alegria de ter caminhado.
Mas sei uma coisa.
Quando chegar a Santiago, pousar-te-ei uma última vez no chão com gratidão.
Porque terás carregado os meus pertences.
Porque terás carregado os meus dias.
Porque terás carregado uma parte de mim.
E porque, ao longo dos quilómetros, enquanto eu acreditava transportar-te, talvez tenhas sido tu a ensinar-me a avançar mais leve.
A tua peregrina.