O despertador toca às 6h45. Bem... toca mais por obrigação, porque, como em todas as manhãs destas últimas três semanas, eu já estou acordada.
Vamos lá. Levanto-me, faço a higiene da manhã, os últimos preparativos. Ponho a mochila às costas, uma peça de fruta numa mão, uma barra de cereais na outra, e parto para este último dia.
O programa? 39 km de barco e depois 32 km a caminhar.
Um dia como o Caminho sabe oferecer: bonito, intenso... e um pouco fora do comum.
Esta manhã, as emoções misturam-se. Há uma vontade enorme de chegar, mas também aquele aperto no estômago. O calor, os quilómetros, o cansaço... e essa estranha sensação de que tudo isto está prestes a terminar.
Já? Como é possível?
Tenho a sensação de que caminhei uma eternidade... e, ao mesmo tempo, parece que tudo passou num instante. Uma parte de mim só queria continuar mais um bocadinho.
A travessia de barco é magnífica. Seguimos o percurso que, segundo a tradição, foi feito pelo corpo de São Tiago, assinalado pelas doze cruzes que ainda hoje marcam este caminho carregado de história.
As paisagens sucedem-se, o silêncio instala-se. E então chegam as primeiras lágrimas. Não são lágrimas de dor. São lágrimas de quem finalmente percebe que está quase no fim.
É isto... Estamos mesmo a terminar esta aventura.
Depois de tudo o que vivemos, de todas as dores, dúvidas, gargalhadas e encontros... estamos quase a chegar.
Que caminho...
Desembarcamos em Sarsure e retomamos a caminhada até Padrón, pouco mais de dois quilómetros.
Primeira paragem: o posto de turismo para levantar a Pedrona, o certificado da Variante Espiritual.
Uma variante absolutamente magnífica... embora nunca vá esquecer aquela subida de 8 km! Na altura pareceu-me interminável. Hoje percebo que, acima de tudo, ela me provou uma coisa: eu era capaz de muito mais do que imaginava.
E depois houve o Nico. Um encontro muito bonito. E, acima de tudo, o melhor elogio de todo o Caminho:
— "Uau, tens um ótimo ritmo! Custou-me ultrapassar-te. Parabéns!"
Dito por um atleta com quase 1,90 m. Acho que o meu ego caminhou sozinho durante os dois quilómetros seguintes.
Depois de uma pequena volta pelo enorme mercado de Padrón para comprar fruta, seguimos caminho rumo a Santiago.
O sol também parece decidido a terminar o Caminho em grande estilo. Quanto mais avançamos, mais o calor aperta. Mais de 40 graus.
Os primeiros vinte quilómetros passam quase sem darmos por isso. Os cinco seguintes também. Depois chegam os outros cinco... E aí começa a doer. Os pés protestam seriamente.
A água nas garrafas já parece chá. O ar queima. Cada passo exige mais esforço do que o anterior.
E depois... Os últimos dois quilómetros.
Tenho a certeza de que foram mais longos do que os 500 anteriores.
Mas esta avenida nunca mais acaba?
Esconderam-nos a catedral?
Mudaram-na de sítio?
A cada curva penso:
"É agora."
Pois...
Não.
Mais uma curva.
Mais uma rua.
Mais umas centenas de metros que parecem vários quilómetros.
Entramos finalmente no centro histórico.
E... ainda não há catedral.
A sério?
Está a brincar às escondidas connosco?
Descemos uma última rua...
E então...
Ela aparece.
Primeiro o topo da torre.
Depois toda a catedral.
Tenho a impressão de que o meu coração chegou antes das minhas pernas.
É oficial. Chegámos a Santiago.
Percorremos os últimos metros até à Praça do Obradoiro.
O quilómetro zero. Conseguimos. 21 dias. 528 quilómetros.
As emoções rebentam.
As lágrimas caem sem pedir licença.
Há alívio, orgulho e uma felicidade imensa por termos chegado ao fim.
Uma aventura que nos mudou muito mais do que alguma vez imaginámos.
Sentamo-nos.
Finalmente...
Bem...
Quase.
Porque no preciso momento em que dobro as pernas, o meu corpo decide lembrar-me de todas as dores que tinha colocado em pausa só para me deixar chegar até aqui.
Ai... Como o chão fica longe... Cinco minutos de descanso.
Porque ainda falta carimbar a credencial e levantar a Compostela.
Indicam-nos o Gabinete do Peregrino. Do outro lado. Desculpem? Ainda... temos... de... caminhar?
Os meus pés apresentam oficialmente uma reclamação.
Finalmente chegamos.
A funcionária recebe-me com um sorriso enorme.
— "Que incrível! Fez Fátima-Santiago? Eu fiz Santiago-Fátima!"
Está genuinamente feliz.
Eu também.
Pelo menos por fora.
Porque, por dentro, só penso:
"Por favor... dê-me só o certificado... antes que os meus pés peçam o divórcio."
Ela observa todos os carimbos. Compara as etapas. Com muita calma. Demasiada calma.
E eu só penso:
"Sim, é muito interessante... mas os meus pés estão prestes a abandonar o meu corpo."
Finalmente...
— "Parabéns pelos seus 528 quilómetros. Aqui está a sua Compostela e o certificado da distância percorrida."
Nunca fui tão feliz por pagar três euros.
Mais cinco passos até à caixa.
Sobrevivi.
Missão cumprida.
De volta ao albergue. Os últimos minutos parecem uma ultramaratona. Deito-me praticamente no chão.
A cama beliche?
Hoje... nem pensar.
Um bom duche de água fria.
Os meus pés.
As minhas pernas.
A minha alma.
Tudo agradece.
Depois chega uma mensagem:
— "Alô meninas! Venham almoçar connosco antes de eu ir embora!"
Era impossível partir sem voltar a ver o Isidro.
O nosso avô bem-disposto. A mais bonita amizade que este Caminho nos ofereceu. Claro que estava rodeado de pessoas. Não podia ser de outra forma. Tem esse dom raro de juntar pessoas à sua volta com o seu enorme coração e a sua alegria contagiante.
Uma última noite cheia de gargalhadas, recordações e pessoas maravilhosas.
Só faltava o nosso pequeno Jordi, que certamente andava a explorar as ilhas Cíes.
E assim termina esta aventura maravilhosa.
Sandra...
Parabéns.
Porque, apesar de todas as bolhas que tomaram conta dos teus pés, nunca desististe.
Podes sentir um enorme orgulho em ti.
Obrigada por me teres levado contigo nesta aventura inesquecível.
Obrigada por estes 528 quilómetros.
Obrigada por todas as memórias.
O Caminho termina.
Mas acredito que, de certa forma, nunca nos deixará.
Que o regresso à vida "normal" seja tranquilo... mesmo sabendo que uma parte de nós continuará sempre a caminhar.
Ultreia.